A SÉRIE RASTER *

Presente em grande parte da obra de artistas atuantes na contemporaneidade, o livro de artista apresenta-se através das mais diferentes possibilidades. Conforme Paulo Silveira, o “conceito de leitura da obra de arte, caro ao nosso universo, precisará ser relativizado”, visto que “Os fundamentos estéticos, linguísticos, funcionais e estratégicos que configuraram o livro de artista stricto sensu (uma publicação) são os mesmos dos principais eixos estruturantes da arte contemporânea” (O livro de artista como assunto acadêmico, :Estúdio, Lisboa, 3, 6, 276 2012).

 

Trabalhando com arquivos digitais e com arquivos analógicos, estes últimos logo decodificados digitalmente, Flavya Mutran reflete sobre os processos aí envolvidos:

 

Cada foto digital é formada por um conjunto de pixels que corresponde a uma estrutura única de ‘zeros e uns’, como também de outros caracteres e algoritmos em combinações decimais, hexadecimais e octadecimais da imagem. Mesmo que os arquivos sejam reconfigurados, reduzidos, ampliados, alterados em cor ou matiz, ainda assim seus códigos estruturais guardam todas as suas características originárias, e dependendo do programa que será́ usado para sua interpretação, passam a ter significados e correspondências próprias, passíveis de leituras, ainda que esta leitura seja inteligível apenas por máquinas. (Escrituras fotográficas no futuro analógico do pretérito digital. (In: 22º Encontro da ANPAP, Belém: UFPA, 2013, 1458)

 

É justamente pensando nesta codificação de imagens em caracteres – sobretudo os códigos binários que são a base de toda informação digital, que Flavya concebe a série RASTER. A célebre imagem Vista da janela em Le Gras, de Joseph Nicéphore Niépce (1826), foi ponto de partida para a criação do primeiro livro da série que reúne 202 páginas, impressas em impressora caseira (sem edição definida), que são geradas a partir da leitura digital da imagem, sem no entanto que seja oferecida a visualidade desta como imagem impressa. A artista coloca maiores informações sobre sua fonte primeira sob forma de um QR-CODE que pode ser consultado via web.

 

Como procedimento de base, Mutran abriu a imagem em arquivo de extensão jpg em programas de leitura de texto gerando, assim, um arquivo de caracteres de leitura incompreensível, que lembra os sinais de corrupção de arquivos por vírus ou outras anomalias.  Depois, formata estas informações em páginas assemelhadas às de livros tradicionais que são apresentadas encadernadas e também em folhas soltas. Mutran desdobra esta imagem primeira em outras combinações gráficas, corrompendo-a novamente sob novos aspectos e formas. Uma caixa arquivo com cartões tipo fichário integra um possível dispositivo onde, supostamente, a digitalização destes códigos (sem erros) poderia recriar virtualmente a imagem original. Assim, esta série, consagrada integralmente à imagem, em nenhum momento oferece a visualização da mesma nos objetos que dela resultam.

 

Maristela Salvatori

Doutora em Artes e Ciência das Artes por Paris I (estágio Sênior CAPES), artista docente no PPGAVI da UFRGS. (Orienta Arquivo 2.0)

 

 

 

* Extrato de apresentação feita no VII Congresso Internacional CSO'2016 Criadores Sobre outras Obras, Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, em Março de 2016-Portugal.